Ensaio · Negócios · Opinião · Trabalho · Vida

Nassim Nicholas Taleb: Um funcionário é basicamente um “cão obediente e domesticado”

Tradução livre de artigo publicado na página do autor no LinkedIn. Também é um trecho do seu mais novo livro. Como leitor e fã dos livros de Taleb resolvi publicar essa versão em português. É um texto provocador, para refletir.

Só um adendo para não-conhecedores do autor: “pele em jogo”, largamente usada no artigo abaixo, é uma expressão que poderia ser traduzida como fazer coisas colocando o “seu” na reta, numa adaptação abrasileirada desse termo.


“Toda organização quer que um certo número de pessoas associadas a ela sejam privadas de certa parcela de sua liberdade. Como você possui essas pessoas? Primeiro, por condicionamento e manipulação psicológica; segundo, ajustando-os para ter alguma ‘pele em jogo’, forçando-os a ter algo significativo a perder se desobedecerem à autoridade. Na máfia as coisas são simples: homens mandados (ou seja, comandados) podem ser mortos se o capo suspeitar de falta de lealdade, com uma estadia transitória no porta-malas de um carro – e uma presença garantida do chefe em seus funerais. Para outras profissões, a ‘pele em jogo’ vem em formas mais sutis. Continue reading “Nassim Nicholas Taleb: Um funcionário é basicamente um “cão obediente e domesticado””

Projetos · Software · Trabalho

Revisão de expectativas

Como expliquei no post anterior, nos últimos dois meses estive empenhado em criar um CMS próprio. Ele seria usado para conter cupons de desconto de lojas de vestuário. A forma de monetização dele seria conter “deep links”, no estilo marketing de afiliados.

Depois de dois meses cheguei a conclusão que fui longe demais. Por que fazer um CMS próprio? Bem, eu usaria tecnologias novas que me pouparia custos. Mas como assim, investir em um modelo de negócios que nem foi testado por mim antes? Não estaria colocando a carroça na frente dos bois?

Sim, estaria. A bem da verdade é que comecei a estudar as tais tecnologias novas e, empolgado, “engatei uma quinta” e fui embora, desembestado. Esqueci as ideias e análises no livro “Traction” (ver no fim do post) que havia lido antes: começar pequeno e ir testando. Metade do tempo, sim, desenvolver produto, e outra metade na “tração” (ou seja, trabalhar para o negócio vingar).

Na virada do ano ocorreu-me o “estalo”. Caramba, o pêndulo foi longe demais. Eu estou desenvolvendo software pura e simplesmente sem entrar em jogo. E ainda não havia terminado, embora estivesse uns 40% pronto. Continue reading “Revisão de expectativas”

Blog

Da importância de se manter um diário

Estou lendo, no presente momento em que escrevo, o ótimo “O Ego É Seu Inimigo. Como Dominar Seu Pior Adversário“, de Ryan Holiday. Ao contrário do que se pode pensar, não se trata de um livro de autoajuda simples e banal; o autor se preza de abusar de referências históricas e de filósofos (principalmente estoicos) para defender o seu ponto de vista.

Cada capítulo é interessante e tem a mesma fórmula. O autor começa com uma história da vida real (de sucesso ou fracasso) e desenvolve a influência do ego na situação. Quero evitar spoilers, não só para evitar estragar a sua leitura (que recomendo fortemente), mas também para não fugir do foco deste post, que é outro: a importância de se escrever para se desenvolver as ideias e de se lutar contra o próprio ego.

Num dos capítulos Holiday discorre sobre um oficial do Exército americano da época da Guerra Civil que, independentemente do brilhantismo da sua estratégia militar, praticamente passou para a história como um desconhecido.

Em vez de correr atrás de méritos, prêmios e reconhecimento, ele conteve o ego e dedicou-se exclusivamente ao seu trabalho – que desempenho com incontestável sucesso.

O engraçado que, correndo na leitura, identifiquei como o ego me ludibriou e me fez tropeçar. Continue reading “Da importância de se manter um diário”

Blog

Quando comecei a programar…

Quando comecei a programar? Lembro como se fosse ontem. Dezesseis anos de idade (ou quatorze anos atrás…), segundo ano do curso técnico em processamento de dados.

Eu tinha tido lógica de programação no primeiro ano do colegial. E começaria a ver programação na prática no segundo ano (usando Pascal), porém naquelas férias de 2002/2003 eu ainda não sabia. Estava curioso demais para começar.

Daí, na curiosidade, já de férias no final de 2002, fui para o centro de São Paulo, de carona, ajudar o meu pai em um serviço da associação em que ele trabalhava. Ele precisava trazer brinquedos que seriam comprados na Rua 25 de março a fim de ser distribuídos gratuitamente para crianças carentes do bairro. E eu aproveitei para passar na Rua Santa Ifigênia, próxima dali, e reduto da informática na cidade.

Se hoje a Santa Ifigênia já parece uma bagunça imagine 15 anos atrás, com camelôs no meio da rua vendendo CDs aos montes e a iminência do “rapa” da polícia a todo momento. Todo tímido, paramos num rapaz que vendia CD-ROMs de tudo que era tipo: games, softwares, programas gráficos. Daí perguntei para ele se ele tinha o Visual Basic. Ele disse que não era assim, era preciso comprar o famigerado Visual Studio (naquela época, o 6.0) e ele viria junto (juntamente com o Visual C++, FoxPro etc.) Uns R$ 15 e comprei o VS 6.0, mais o AutoCAD 2000.

Visual Basic 6.0
Visual Basic 6.0 (Fonte: Wikipedia)

Meu interesse pelo Visual Basic veio de um livro que encontrei na biblioteca da escola, numa aula vaga. Lembro-me do nome do livro até hoje: “Visual Basic 6 para Leigos Passo a Passo” (e, sim, ainda está disponível para venda por aí). Me pareceu fácil e eu não tinha muito a ideia por onde começar a estudar programação. VB me pareceu fácil, uma sintaxe relativamente simples, e no Visual Studio bastaria arrastar e soltar os elementos numa janela que, pronto, lá estaria o programa visualmente falando.

Pois bem, software comprado e instalado no PC Itautec Celeron 2GHz (lento para danar), só me restava o material de estudo.

Então comecei a buscar nas lojas virtuais da época onde comprar o famigerado livro que vi na biblioteca da escola (a escola emprestava o livro apenas para os estudantes da faculdade.) Fui no Submarino e encontrei ele à venda. Imprimi o boleto, saiu em tinta verde porque não tinha tinta preta no cartucho e pedi para pagarem, pois eu nem sabia como pagar aquilo (!).

Chegando o livro lá fomos nós. Empolgado! Ficava encostado na cama lendo o dito-cujo para depois sentar na máquina e reproduzir. Eu estava lá e era lindo! Você colocava alguns elementos (botões, labels, textboxes), adicionava eventos via códigos Visual Basic e rodava – lá estava o programa funcionando!

Tudo muito simples, mas para um iniciante, era o que havia. Clica no botão, aparece a mensagem “Olá mundo!” em um MsgBox. Coisas do tipo.

Começando o segundo ano do colegial, lá viriam as aulas introdutórias de programação na prática. Usávamos Turbo Pascal, e no terceiro ano teríamos Borland Delphi (2004).

Em 2005 estava saturado da informática. No colégio tínhamos mais de uma dúzia de matérias por vez. Muitas provas, muitos trabalhos… E eu estava de saco cheio de estudar. Queria uma profissão em pudesse exercitar a criatividade e fui para a publicidade.

Logo oficial da linguagem Python
Logo oficial da linguagem Python (Fonte: https://www.python.org/community/logos/)

Voltei a mexer com programação em fins de 2007. Conheci Python. Em 2008 botei um blog usando Django. E voltei a programar, mas com foco em Web. Atribuo ao Python minha volta à programação. Com essa linguagem programar parecia divertido. Os códigos ficavam bonitos, tudo era fácil de se aprender e de se fazer… Daí estou nessa até hoje. E passei pelo PHP, WordPress, ActionScript com Flash, Magento, .NET, Xamarin e Ionic…


Depois de tudo isso, o que penso sobre programar:

Nunca imaginei, quando moleque, que passaria boa parte da minha vida com a cara enfiada num monitor, lidando com códigos. Já avaliei sair da área várias e várias vezes. Me dedicar a um trabalho que envolva mais criatividade, que fosse mais variado, que envolvesse um maior contato com pessoas… Tudo no lugar de passar 8 horas por dia na frente de um computador se debruçando sobre bugs e funcionalidades dentro de um prazo.

É verdade que programar não é só a parte chata de se trabalhar com TI, ter que lidar com códigos cagados de outrem, bugs incompreensíveis e a sensação de se estar obsoleto todo o tempo. Se você realmente for um apaixonado por programação provavelmente irá se dedicar às suas horas vagas aos seus projetos particulares.

No fundo, à despeito de qualquer desgosto que eu tenha tido, penso que programar não deixa de ser uma atividade criativa também. Ou pelo menos, deve ser encarada dessa forma: um jeito de se criar coisas novas que podem ser usadas. E ser vista assim principalmente por quem está começando, como fez aquele  menino de dezesseis anos do litoral de São Paulo que acabou de instalar uma IDE no seu computador e vai começar a jogar alguns programas na tela.