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Razões para não se viver em São Paulo

Como habitante dessa cidade há mais de 7 anos, resolvi escrever um pouco a respeito dessa experiência e do que acho de se morar aqui.

Desde que vim morar aqui a trabalho percebi que não gostaria de viver o restante da minha vida na cidade. E caso você seja um “paulistanófilo” eu peço que você leia o texto e entenda o meu ponto de vista antes de ir até a caixa de comentários me xingar. Não gosto da cidade, mas também não a odeio. 

Não é por birra com os paulistanos ou coisa do tipo, nem por uma ou outra coisa em específico – críticos contumazes da cidade geralmente se focam nos temas de sempre, como o trânsito ruim ou o custo de vida. Não vou repisar nesses tópicos por dois motivos: 1) seria clichê, e 2) eles na maioria são relativos: se você mora perto do trabalho o quesito “trânsito” não tem impacto no seu dia-a-dia, por exemplo.

As razões que me fazem pensar em sair da cidade poderiam ser resumidas numa equação, cujos elementos atingem a todos os moradores da cidade em maior ou menor grau. A saber:

São Paulo de hoje = caos urbano + superpopulação + cultura tóxica de trabalho.

Vou escrever a respeito desses pontos a seguir.

1) Caos urbano

trânsito parado no cruzamento das avenidas Faria Lima e Juscelino Kubitschek, na Zona Sul de São Paulo
trânsito parado no cruzamento das avenidas Faria Lima e Juscelino Kubitschek, na Zona Sul de São Paulo

Talvez o ponto mais banal do texto, mas ainda sim um quesito que atinge a todos os lugares de São Paulo, do centro à periferia.

Sim, São Paulo é uma cidade incrivelmente feia. São poucos os pontos bonitos de São Paulo – salvam-se os parques (quando bem cuidados) e os bairros nobres (mas só para os seus moradores). Mas eles são tão poucos e pouco acessíveis para a maioria da população que vale aqui a menção. Prédios hipermodernos convivem lado a lado com prédios históricos que, embora muitas vezes bonitos, estão mal conservados.

A paisagem urbana é um caos. Pichações estão por todo o lugar, e as calçadas estão sempre sujas – com urina, fezes (humanas ou de animais) ou simplesmente lixo.

A cidade cresceu de maneira acelerada e desordenada, o que fez que com que surgissem minhocões e elevados em todos os lugares. E que também pouco ajudaram para a melhoria do fluxo na cidade: a população cresceu e continua longe do trabalho e a locomoção é lenta.

De uns anos para cá houve uma sinalização para mudança desse status, com a criação de algumas ciclovias e na construção de mais prédios, com mais andares e focados em pessoas solteiras que querem estar perto do trabalho – os chamados “studios”. Mas dificilmente eles irão melhorar esse quadro geral – pelo menos no curto/médio prazo.

Se não bastasse a poluição visual temos ainda a poluição sonora. A cidade parece não descansar nunca. Se você mora no centro, prepare-se para uma orquestra desafinada diária de buzinas, alarmes, britadeiras, sirenes, motos… Inclusive de noite. Posso falar com propriedade: nunca tive qualidade de sono morando na região central (moro há quinze minutos da Av. Paulista). É comum se deparar com algum maluco buzinando à 1h30 da madrugada. No subúrbio/periferia o problema é a falta de educação. Vizinhança não respeita o seu entorno e põe som alto nos seus churrascões de laje nos finais de semana.

2) Superpopulação

É incrível, mas parece que não há lugar em São Paulo que não há aglomeração. Qualquer evento tem fila. Metrô e trem estão sempre cheios, ir para o trabalho à pé (se você morar na região central) é lidar com calçadas lotadas (e fedidas).

São Paulo tem uma população gigante, o que contribui para tornar ela cada vez mais cara para se viver. Tome-se por exemplo os imóveis no centro: os prédios velhos, além de pequenos, têm poucos andares, o que encarece a compra ou o aluguel.

O que contribui para o crescimento constante da população é o fato de ela ter se tornado a “terra do trabalho” do País. Gente do Brasil inteiro vem para cá não só para procurar superar a pobreza, mas por oportunidades boas de trabalho, para ganhar melhores salários. O que colabora para o terceiro tópico dessa lista…

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3) Cultura tóxica de trabalho

Embora eu reconheça que existam profissões mais estressantes que outras (e eu pertenço à categoria das mais estressantes, por ser profissional de TI), invariavelmente o paulistano é atingido por algum nível de estresse de trabalho.

Por abrigar algumas das maiores empresas do País a competitividade e a exigência por produtividade se faz sempre presente. Você pode obter um bom salário, mas ele não virá de graça.

Seja na área de tecnologia, publicidade ou jornalismo, é muito difícil que o seu trabalho não passe da carga horária de 8h/dia ao menos uma vez.

Trabalho na área de TI há cerca de 9 anos. Não teve um lugar em que trabalhei que não conheci alguém que tenha tido algum problema de saúde resultante do trabalho: pico de estresse, dores, crise de pânico, ansiedade, arritmia (resultante de estresse)… eu mesmo tive ataque de pânico.

E se já não bastasse isso a demanda por especialização constante se faz presente, o que toma boa parte do tempo livre e contribui mais para o estresse geral: Cursos livres, de extensão, pós-graduação, MBA, idiomas…

E mesmo que o seu trabalho seja light em termos de cobrança algum tipo de cansaço virá dele, resultado de algum dos itens que citei anteriormente. Por exemplo: se o seu trabalho envolve atendimento ao público, prepare-se para lidar com várias pessoas. Faça o teste: vá numa lanchonete de fast-food do centro da cidade e preste atenção no ritmo de trabalho dos funcionários dela…

Essa produtividade é fruto do fato de São Paulo ter boa parte dos melhores profissionais do país e ser sede de várias empresas, o que faz com que ela tenha muitas oportunidades de trabalho, sendo assim chamariz para pessoas de todo Brasil. Mas isso tem seu preço.


Dito isso, parece um pesadelo até viver aqui. Não é para tanto; até me acostumei com algumas partes.

Dependendo da situação, você consegue um emprego bom; pode morar perto do trabalho, o que ameniza o problema do caos. Mas nem sempre é assim. Vai sorte.

Eu cresci no Guarujá, litoral do estado, e por isso sou mais apegado à calmaria, ao silêncio e a estar perto da natureza. O meu estilo de vida era mais simples; muito diferente da extravagância que se vê aqui na capital por parte dos meus coabitantes e todos os seus excessos: pressa, estresse, comer muito (e mal)…

O que me prende muito à cidade? Razões profissionais. São Paulo é a principal cidade do País na minha área. Mas isso não signifique que num futuro próximo eu não possa mudar de área, tocar um negócio próprio, em outro lugar…

São Paulo não é só desgraça. Os contatos, as oportunidades e as possibilidades de crescimento que existem aqui não existem em outro canto do País. Mas a ausência de qualidade de vida é algo que já está me custando caro. As minhas dificuldades de sono (como apontei no primeiro tópico) já me estão causando problemas de saúde, para ficar num exemplo básico.

Por fim: eu sei que a internet está cheia de textos em estilo Fla x Flu, com cada lada defendendo o que acha bom e acha ruim na cidade. Aqui só procurei sair dos lugares-comuns e deixar uma opinião.

Pretendo ir embora algum dia mas não para tão longe, de maneira que eu possa vir a São Paulo de vez em quando e curtir o que ela tem de bom. Pois do lado ruim eu já estou cheio.

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