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O mito do brasileiro ser um povo empreendedor

O brasileiro é um povo empreendedor. Você já deve ter ouvido falar isso alguma vez em algum lugar. Empreendedorismo cresce no Brasil.

Ou lido a respeito. “O Brasil é um dos países que mais abrem empresas no mundo”, ou coisas do tipo.

A bem da verdade é que isso não é verdade. O Brasil não é um país empreendedor. Empreendedor aqui no sentido stricto sensu do termo, de se começar um negócio com uma proposta inovadora, e não simplesmente começar um negócio.

Entre vontades e circunstâncias

Muita gente – como consultores, escritores de autoajuda, políticos e economistas de matriz liberal -, muitas vezes divulgam essa ideia do brasileiro ser empreendedor puramente se baseando em números e pesquisas. Algumas abaixo, que listo a partir de uma simples busca no Google por brasileiro+empreendedor:

Então, calcados nesses dados, as intenções dos nossos valentes variam. Economistas e políticos liberais pegam o gancho a fim de promover seu ideário (reduzir o Estado, diminuir a burocracia); autores de autoajuda, para simplesmente promover seus livros; e consultores/coaches, para estimular a população a ir para o empreendedorismo e, claro, vender seus serviços, palestras, cursos, etc.

Num podcast recente sobre política que ouvi recentemente, envolvendo três comentaristas conservadores e liberais, um deles foi mais longe no entusiasmo. Ele se baseou numa pesquisa (de novo) feita em favelas brasileiras, para um livro feito por autores esquerdistas (o que colocaria a pesquisa acima de qualquer suspeita). Surpresa: O tal estudo mostrava que não só o povo brasileiro de uma maneira geral seria mais liberal, mas sobretudo os mais pobres. Oh!

Tirando o dedão da frente do olho

Por trás dos números e da interpretação que cada um quer dar, com o viés mais à direita ou à esquerda política (uma vez que essa se tornou a tônica nesses tempos de politização de tudo) o fato é que o povo brasileiro não é empreendedor.

Uma pergunta: dessas pessoas que dizem que o povo brasileiro é empreendedor, quantas delas realmente já pisaram numa favela pra valer?

Sim: conhecer o povo, conversar, ter amigos na favela, etc. etc., e não só visitar como se estivesse indo num zoológico?

Se esconder atrás dos gráficos e deduzir a partir deles, dentro de uma sala com ar-condicionado e sem estar com o seu na reta é uma coisa. Falar e falar cria a impressão de que estamos fazendo e que aquilo que falamos é real só por falar, mas não é.

"Em teoria não há diferença entre teoria e prática. Na prática, há." (Yogi Berra)
“Em teoria não há diferença entre teoria e prática. Na prática, há.” (Yogi Berra)

É como colocar o dedo polegar na frente (bem perto) do olho; temos a impressão que o nosso dedo é maior que os outros objetos vistos adiante. Um erro de julgamento.

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Entre oportunidades e necessidades

Vejamos o caso das classes baixas empreendedoras: ali o suposto empreendedorismo é por necessidade. O sujeito não consegue emprego e monta um bar; a dona de casa usa a garagem para montar uma mini-doceria e complementar a renda do marido. E por aí vai.

O empreendedorismo cresceu muito no Brasil há algum tempo atrás justamente por causa de circunstâncias parecidas: com a crise e a população perdendo o emprego, só lhe restou como alternativa se lançar em “carreira-solo” montando algum negócio.

Não é o empreendedorismo por oportunidade. Aquele que faz alguém largar a faculdade (ou o emprego) para começar algo novo na garagem de casa – uma imagem consagrada pelo Vale do Silício.

No Brasil, já vi casos de pessoas que fecharam a empresa depois de serem aprovadas em concurso público – e olha que não conheço muita gente. De fato, mais da metade dos cariocas já prestaram algum concurso. Não me parece muito um perfil de povo empreendedor.

Alguns poderão rebater dizendo que isso acontece devido ao fato de o governo não oferecer um bom ambiente de negócios que favoreça o empreendedorismo, forçando o cidadão a se agarrar à estabilidade do emprego público.

Ok. Isso pode realmente contribuir. O Brasil está mesmo mal na fita: no último ranking da Heritage Foundation (que analisa o ambiente de negócios de um país) o Brasil está perto do “Z-4”, na nada honrosa 153ª posição (no momento que escrevo).

Mas isso não explica tudo. Nas eleições, quantas vezes você viu candidatos defendendo abertamente a redução do tamanho do governo, menos impostos e menos burocracia?

O que mais se vê é justamente o contrário: políticos prometendo mais e mais Estado (mais saúde, mais educação…) É o paradoxo de Garschagen. Mas é o Brasil real.

Sim, de fato o Brasil precisa melhorar seu ambiente de negócios. Precisa de mais empreendedorismo – para gerar mais empregos e reduzir a pobreza.

Mas isso não será feito com discursos demagógicos e apaixonados. Culturalmente o brasileiro ainda tem um ranço estatista; isso é histórico. E não se muda com leitura de autoajuda simplesmente.

É preciso, antes, ler a realidade. E no caso do suposto “espírito empreendedor” do brasileiro ainda estamos longe disso.


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