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Me engana que eu quero: fake news e nossa propensão a acreditar em mentiras

Me engana que eu quero: fake news e nossa propensão a acreditar em mentiras

Fake news, religiões, traumas e amnésias.

Em As Aventuras de Pi nós acompanhamos toda a narrativa de um homem que perdeu a família durante uma viagem num navio quando ele era jovem.

Ele conta a história de maneira alegórica: os adultos são retratados como os animais do zoológico que estava sendo transferido. O embate entre o menino Pi e o tigre não existiu de fato. Ele adotou essa narrativa pois era um jeito de se lidar de maneira mais confortável com a dor da perda e da violência que ele assistiu.

A psicologia defende que crianças que sofreram de abuso (seja físico, sexual ou moral) tendem, muitas vezes, a nem se lembrar das agressões; esse processo tem o termo técnico na psicologia de “amnésia dissociativa”.

Transtornos como o TDI são resultado disso: novas personalidades tomam o lugar de uma única personalidade (o que seria o normal). É um jeito de se lidar com o trauma e fazer a vida seguir adiante – mesmo com cicatrizes e perdas.

A religião em grande parte funciona oferecendo respostas para perguntas sem definição concreta. Somos inquietos e acreditar em algo nos dá algum conforto.

Nos últimos tempos, nas redes sociais, vimos o salseiro contra as tais fake news – as tais notícias falsas. Facebook, portais de notícias e usuários passaram a discutir formas de combatê-las.

Meu ponto é: lutar contra as fake news é simplesmente inútil.

Nos debates intermináveis em que se tornaram as redes sociais poder recorrer a um texto que reforce sua opinião é ouro. Pouco importa se é verdade ou não. Está escrito, e o fato de estar escrito engana nosso cérebro, fazendo ele achar que se trata de uma verdade.

Lá vão todos, como numa procissão, compartilhar ad eternum o link da notícia falsa.

Ante a dor sempre iremos buscar o conforto. Mesmo que seja numa mentira, como fez o Pi.

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