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Pequenos frascos, grandes perfumes: a “cauda longa”

A Cauda Longa

Relendo um blog antigo sobre desenvolvimento de jogos, que costumava acompanhar anos atrás, lembrei do relato de um desenvolvedor leitor do blog, um postmortem, do seu game para celular. Era seu início na área, de forma independente, nas hora vagas. Ele conta como foi sua trajetória da produção ao lançamento de um game mobile, chamado Double Jumper, para Windows Phone.

O texto é do hoje longínquo 2012. O game é assumidamente tosco, mas o que mais me surpreendeu no relato foi o número de downloads conseguidos, logo de início, sem grandes investimentos ou propaganda. Ainda mais numa plataforma hoje defunta da Microsoft, que conseguiu em seu máximo ridículos 3% do mercado.

Li o texto na época, e confesso que, na ocasião, pouco entendi. Hoje, acho que entendo melhor o fenômeno em questão, e vejo por outra perspectiva.

A plataforma Windows Phone, na ocasião, era uma novidade. Tinha um pequeno público, é verdade, mas era um que queria novidades. Daí o game do Gabriel entrou em questão.

Quem apostaria em lançar algo para Windows Phone? O quente naquele momento era o iPhone (hoje seria o Android) – estava tudo mundo indo para lá.

Pois bem. Se ele tivesse mirado no iPhone dificilmente teria conseguido aquela número de downloads. O iPhone já estava tomado pelos Angry Birds e Temple Runs naquela época. O Double Jumper seria mais um produto na prateleira da App Sotre, juntando poeira até que alguma viv’alma o encontrasse. E se decepcionasse com a simplicidade.

Eu criei um app para Android, o Weesify, como relatei aqui. Depois de seis meses ele obteve um pouco mais de 5 downloads. É verdade que não investi um tostão em propaganda, não trabalhei duro criando um site sobre o app ou enviando press releases para blogs.

Mas cá entre nós, minha ideia nem é original. Já haviam outros apps parecidos. Embora minha primeira ideia tenha sido baixar um app para ter essa funcionalidade em vez de desenvolver um, achei os outros complicados. Queria algo simples (uma tela só) e assim o fiz. Mas já há concorrentes com um produto mais bem-acabado, com mais tempo de mercado e maior base de usuários.

Moinhos de vento

Entrar na indústria digital (web, aplicativos e games) se tornou uma “corrida do ouro”, em que todo mundo corre atrás para chegar à uma suposta mina de ouro que nem sabemos se existe. Sites e apps são lançados aos montes, preparando um voo imaginário para se tornar os próximos Facebooks ao passo que logo se espatifarão no chão.

Nos tornamos Dons Quixotes, imaginando-nos pertencer a uma vida coberta de glórias que só existe na nossa imaginação, lutando contra moinhos de vento que são indiferentes aos nossos caprichos.

Olhando para os gigantes moinhos de vento ignoramos as oportunidades contidas na chamada cauda longa. Na cauda longa se encontram os nichos de mercado.

Foi o caso de quem desenvolveu apps para Windows Phone. Ou, no mundo dos apps de hoje, será que vale a pena empurrar mais um aplicativo para a App Store, num mundo que baixa cada vez menos apps e a grande maioria nunca é baixado?

Mas é aquela coisa: criamos um app ou game sonhando que ele vai se tornar o próximo Angry Birds. “Já entrou algum?”, nos perguntam amigos depois do lançamento. Não, não entrou. E acaba não entrando nenhum.

Vendendo livros…

Eu percebi o efeito da cauda longa em 2016, quando estava em casa e não tinha voltado a trabalhar em um emprego fixo. Paralelamente aos freelas e aos projetos pessoais (games que não lancei, sites) eu vendia livros usados no MercadoLivre.

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O meu tempo inteiro era ocupado pelo computador, as IDEs de programação e projetos. Enquanto isso, a modesta venda de livros dava algum resultado, mesmo sem algum esforço. Os fins de tarde eram dedicados à idas ao Correios, para envios dos livros. Daí deu o estalo: “caraca, fico aqui esquentando a cabeça com programação e ideias miraculosas; enquanto a loja de livros, com pouco esforço, sem querer me dá algum retorno.”

A maior parte dos compradores dos livros não provinha dos grandes centros, mas sim do interior do Brasil. Interiores da Paraíba, do Rio Grande do Sul, de Santa Catarina, do Paraná… Eu envio os livros via impresso normal dos Correios – diferentemente das grandes lojas, que têm logística própria. Demora mais, mas, em compensação, tende a ser mais barato para os moradores do Brasilzão.

Resumindo o raciocínio: Em vez de ficar jogar software num mundo inundado de software, não seria mais fácil adotar um postura mais conservadora e menos egocêntrica, e tocar uma simples loja virtual?

Trazendo a ideia da cauda longa para o mundo mobile: em vez de apps, que tal fabricar capinhas de celular artesanais, ou paus-de-selfie, lentes que trazem efeitos diferentes para as câmeras, tripés para celular, empresas de troca ou venda, assistência técnica, lojas de celular, assets para serem usados por outros devs, IoT, entre outras ideias?

Mas, no entanto, é mais fácil se fechar perante o mundo, encastelado nos próprios projetos, cheio de metodologias e reuniões. Afinal, vamos lançar o próximo Google! Vai dar certo sim, amiguinho…

O flanador racional

Antes eu tinha essa postura de me fechar, fazer tudo e depois quebrar a cara, bradando contra o mundo. Hoje eu procuro seguir aquele princípio do Vale do Silício: “fracasse rápido”. Lanço no máximo um MVP, de início. Melhoro um pouquinho aqui e ali e vou acompanhando a recepção. Vejo o que traz tráfego, se buscas, se redes sociais…

Foi assim como o Post4Fun! e em tese também foi com o Weesify – tinha em mente mais recursos, mas que dariam mais trabalho e resolvi lançar logo com o recurso principal.

O certo mesmo seria ir mais além e nem fazer um produto com uma ou duas funcionalidades, mas sim landing pages para captura de leads. É o melhor: veja se há demanda para a sua ideia primeiro em vez de dar com os burros n’água depois.

Mas aí já é outra história…


Para aqueles procurando um texto mais objetivo me desculpem o texto longo. Procurei falar da minha própria experiência pessoal, esperando que tenha alguma valia. Mas se você se interessou você pode ir além desse tópico. Recomendo fortemente os livros:

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