Brasil

A meritocracia na terra do homem cordial

É muito provável que o leitor já tenha se deparado com o termo “meritocracia”. Ele ganhou realce inicialmente pela boca de liberais, e depois por militaristas e também se faz presente em alguma medida no tal “mundo corporativo”. Significaria, em interpretação livre, “poder do mérito”. Ou seja, a sua posição deveria advir do seu esforço individual, e tão somente disto.

A defesa dessa ideia ganhou corpo nos últimos anos, como reação às iniciativas governamentais e de ideólogos de se procurar fazer algum tipo de “engenharia social”, como altas tributações para compensar as tais “desigualdades sociais” e cotas nas universidades, entre outras.

Eu não vou entrar no âmbito político dessa ideia, pois o Fla vs. Flu, apesar de divertido, é pobre. Vou me ater apenas a entender o que poderia ser a meritocracia na Terra brasilis.

Meritocracia e o planeta Brasil

O sociólogo Sérgio Buarque Hollanda foi o criador do conceito de Homem Cordial. Por esse conceito, o brasileiro seria um indivíduo passional, que se pauta mais pela emoção do que pela razão (cordial aqui nada tem a ver com “cortês” ou “afável”, mas sim com coração).

Daí o brasileiro nortearia mais suas ações pelos “laços de coração” do que pela razão, por exemplo.

E então, por aqui, a nossa meritocracia morre. Para respeitar o mérito, grande dose de impessoalidade é necessária.

Inclusive, no cerne do homem cordial estaria a origem do nosso patrimonialismo, a confusão entre público e privado. A tradição do nepotismo e do capitalismo de laços não me deixa mentir. É muito mais fácil subir na vida no Brasil através de influência do que por esforço. Vou subir de cargo e colocar “os meus”.

Meritocracia requer respeito às regras. Não à toa muitos de seus maiores defensores estejam no meio militar. No entanto, é preciso lembrar que o meio militar é um mundo a parte da nossa sociedade, assim como todo lugar fechado em regras específicas – como bem lembrou Theodore Dalrymple no seu livro de memórias como médico no sistema prisional inglês. É preciso olhar além da bolha. O Brasil real é aquela bagunça em que cada um faz o que quer.

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Não estou sendo taxativo em dizer que o poder do mérito não exista. Num Estados Unidos ou Japão da vida, com altos graus de impessoalidade e respeito às regras, deverão existir. Mas por aqui, não.

Por fim, entendo que a meritocracia deveria ser visto como um objetivo a ser buscado, um norte moral, mas nada além disso – sem grandes pretensões. Portanto, relaxemos e tomemos um café brasileiro, um dos melhores do mundo – com mérito.


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