Visionários de pés de barro

Você já viu um visionário de pés-de-barro? É aquele sujeito que tem ótimas ideias, mas que na hora de executar ele perde o ânimo e desiste. Ou está toda hora mudando de planos, porque, tendo uma ideia, ele se cansa de pensar nela, de tanto remoer, e larga mão partindo para outra e outra ideia assim sucessivamente.

Com pés-de-barro faço alusão ao gigante de pés de barro, aquela lenda bíblica de que Nabucodonosor teria sonhado com um gigante com cabeça de ouro, mas devido aos pés feitos de argila ele logo se desmanchou.

Eu já me deparei com um sujeito que tinha ambições muito maiores do que si próprio. Foi numa iniciante agência digital pela qual passei, três anos atrás.

Dois dos três sócios insistiam em querer dar passos maiores que as pernas. Um deles estava a todo momento mudando de planos. No que se cansava de um projeto, já o largava para tentar vender outro, sempre jogando nas costas dos funcionários – principalmente eu, meu outro colega programador e a estagiária designer -, o desenvolvimento da coisa toda. Tudo a fim não somente de obter maiores ganhos financeiros, mas de proporcionar também a si próprio os momentos de falatório nas vendas, em que ele podia massagear o seu ego. Vivendo na ilusão de ser uma espécie de novo Steve Jobs.

O narcisismo arrogante levava àquela situação: projetos com prazos errados e atrasados, falta de planejamento mínimo, dinheiro que não entrava, stress, discussões e quase até brigas (no sentido físico do termo mesmo).

Saí da agência três meses depois, com o meu colega pedindo demissão na semana subsequente à minha. Como cicatriz ficou uma crise de pânico que me levou ao hospital num domingo à noite. Saí prometendo a mim mesmo nunca mais me enfiar em ambientes assim. Numa das conversas de almoço meu colega usou essa expressão para descrever o ego das figuras: “ambições de pés de barro”. Lembro até hoje.

O chefe-narciso saiu do negócio que ele mesmo ajudou a fundar. Ficou uns dois anos nele. Ao que parece se lançou numa nova empreitada (tentativa), meio que em carreira-solo (consultor). Soube tempos depois, passeando pelo Facebook, para ver que fim levou a coisa toda, que estava indo para a Itália para uma nova… nova sei lá o quê.

Sob o domínio do ego

Relatei aqui histórias sobre outras pessoas dominadas pelo ego, mas também tenho que reconhecer que tal coisa ocorre/ocorrera comigo. Vontades de lançar várias e várias coisas ao mesmo tempo; novos negócios de uma só vez; falta de foco; desejos grandiosos de sucesso… Tudo existente apenas na cabeça. Realizar que é bom, nada (ou pouco).

A publicidade, a mídia e as redes sociais, entre outros, nos vendem ilusões de sucesso, status e prazer a todo momento. Vendem como se fosse a única coisa realmente importante. O sucesso pelo sucesso – um fim em si mesmo. Uma era hedonista.

Sendo que, na realidade, as coisas que realmente importam são poucas. É mais fácil encontrar a felicidade numa vida pacata no interior, cercado pela natureza e bichos, do que no stress de um cargo pomposo numa multinacional de prédio espelhado, com um contracheque de mais de 4 dígitos. Aonde é mais fácil encontrar a depressão: na cidade do diabo ou no campo de Deus?

Ryan Holiday acerta em cheio quando trata o ego como o seu principal inimigo. O ego nos diz para buscar o status e reconhecimento, a vaidade pura e simples, enquanto que a beleza da vida está nas realizações, na austeridade e no silêncio.

A última vez que me deparei com aquele ex-chefe foi no LinkedIn. Ele tentara, para minha surpresa, me adicionar aos contatos. Recusei, não me senti confortável me recordando daquela péssima experiência. Talvez mande este texto para ele.