Verdades que não te contam sobre esse tal mundo corporativo

Época de vestibulares. E época também das faculdades que vendem sonhos: “garanta seu futuro”, diz a propaganda. “Garanta seu lugar no mercado”, “realize seus sonhos”…

Todas com o mesmo objetivo: fazer com que você acredite que, tendo um diploma, você terá a garantia certo de um grande futuro.

Esse tipo de mentalidade “bacharelesca” é algo enraizado há muito na sociedade brasileira. “Estude, se não você vai virar gari”, diz o ditado. Na literatura você também pode encontrar evidências dessa cultura, como descreveu numa passagem Lima Barreto, quando dois personagens contemplam de longe a biblioteca particular de um leitor voraz: “para que tantos livros, se nem é bacharel?”

Mas nesse artigo não quero tratar sobre essas questões. Mas sim da ideia de que entrar no tal do mundo corporativo tenha se tornado uma espécie de salvação dos nossos dias, a religião dos nossos tempos.

Faça faculdade, depois especializações, MBAs e cursos; fale termos em inglês, faça reuniões, apresentações em PowerPoint; dedique muito mais de 8 horas/dia pelo seu emprego; rale para ter um cargo de pelo menos 3 termos, do tipo “analista de processos gerenciais sênior”. E por aí vai.

E a verdade que não te contam, principalmente quando você é jovem e ainda está na fase do vestibular, e que a realidade está longe de ser o mar-de-rosas que nos vendem por aí…

Propagandas de Faculdades - busca no Google Imagens

Propagandas de Faculdades – busca no Google Imagens

 

A começar pela faculdade. Foi-se o tempo que um diploma garantia alguma coisa. É obscurantista esse pensamento “cientificista” de que uma profissão só pode ser aprendida num curso superior. Vivemos na “sociedade líquida”: tudo muda a todo o tempo. Interesses, gostos…

Eu mesmo fiz um curso na área de comunicação; hoje trabalho com programação/TI. Conheço jornalista que hoje está no marketing, analistas de sistemas que viraram donos de academia, de espaços de coworking… Tentar resumir sua vida profissional àquilo que está impresso num diploma soa como piada nesses tempos, em que boa parte das profissões poderão desaparecer em poucos anos.

E mesmo trabalhando em tecnologia já tive que mudar. Comecei trabalhando com uma tecnologia que já morreu. Percebe o drama?

Mas meu foco principal aqui é o tal do “mundo corporativo”.

Eficácia no feedback dos stakeholders envolvidos no core business do projeto

As propagandas de faculdade sempre nos vendem os seus cursos superiores com imagens de pessoas sorridentes, trajando roupas sociais, ou então em pose visionária, cercada de prédios espelhados em arquitetura estilo hi-tec de mal gosto. Faça o curso Xpto e você será o pica das galáxias em gerência de pessoas, ou qualquer cargo “superior” em que você não precise botar a mão na massa, pois botar mão na massa é coisa de escravo e cargo de status mesmo é ficar controlando pessoas.

Mas daí quando você entra no mundo corporate e convive diariamente com pessoas que estão há muitos anos (ou décadas) por ali naquele ambiente, com suas olheiras depressivas e cansaço de milhares de reuniões às costas, você vê que não é bem assim.

Dilbert, HQs que satirizam o ambiente corporativo

Dilbert, HQs que satirizam o ambiente corporativo

A bem da verdade é que, independente da carreira que você escolher, a maior parte do seu tempo trabalhando será um saco. Você terá pouca autonomia, terá que fazer coisas que odeia e, ainda por cima, na maioria das vezes, terá que conviver com pessoas que não suporta, quando elas também não te suportam e que falsamente fingem gostar só por questões de convivência (principalmente em empresas grandes onde tem de tudo).

Daí muitas dessas ideias corporativas modernas de se encher os ambientes de trabalho com videogames, mesas de ping-pong e outras distrações inúteis: tudo para vender uma ideia falsa de ambiente legal e descontraído.

Reuniões intermináveis a todo momento, “designers” e “líderes” buscando massagear o próprio ego, departamentos de RH e suas dinâmicas de grupo… Sem falar em toda aquela falsidade, em toda piada “para quebrar o gelo”. E tudo envolvido com “drogas baratas”: palestras motivacionais, plano de saúde, plano odontológico, vale-refeição e vale-alimentação, presentinhos etc. etc., até chegar no ponto em que você, “colaborador” (eufemismo para funcionário) é finalmente “desligado” (eufemismo para demitido) da empresa.

Ser bem-sucedido em X implica não ser bem-sucedido em Y

Tudo bem que um diploma aumente, sim, suas chances de emprego; mas resumir trabalho e “sucesso” a ter um emprego é um reducionismo ridículo. E esse “sonho” de carreira, além de estar com os dias contados, não corresponde à realidade.

Cuidado com as armadilhas que o tal “mundo moderno” coloca por aí. O segredo para ser bem-sucedido numa coisa é eliminar a chance de ser “bem-sucedido” em várias outras.

Sucesso vs. Fracasso

Sucesso vs. Fracasso