Aquele estranho país que tem o The New York Times como deus

Comprei dois livros recentemente: “Escuta Só“, do crítico de música Alex Ross, e “Antifrágil“, do Nassim Nicholas Taleb, com certeza um dos mais geniais pensadores vivos. O primeiro, Alex Ross, trabalhou no The New York Times; o segundo não, mas na capa da edição brasileira do livro é dada a ênfase de que o autor é o mesmo de “A Lógica do Cisne Negro“, que esteve na lista dos mais vendidos do… The New York Times.

Essas duas menções ao jornal norte-americano me relembraram o incrível respaldo que ele tem por estas terras antárticas. É muito comum você ver nas redes sociais alguém emitir opinião sobre determinado assunto – ou querer defender uma bandeira ideológica – e se amparar em algum link, artigo ou mesmo tweet ou post de Facebook de algum jornalista da publicação nova-iorquina.

Citar o NYT ou pensar igual a ele dá imediata aura de superioridade intelectual, sinal de cultura ou simplesmente (e principalmente, no caso de debates de internet) de se estar com a razão. “Veja, aqui está como no The New York Times, então estou certo e você não.”

Um exemplo que me vem mais rapidamente à cabeça é de um amigo jornalista de extrema-esquerda que, insistindo em defender o emprego de médicos cubanos no Brasil, compartilhou um post do Estadão em que o jornal americano elogiava a experiência desses médicos no combate ao ebola. Essa defesa por parte do NYT, segundo ele, daria um “nó na cabeça de muita gente” devido ao fato de o jornal ser norte-americano, o que automaticamente o colocaria como anti-Cuba e anti-esquerda (na cabeça da esquerda brasileira todo mundo nos EUA é de direita…)

A suposta autoridade do jornal estrangeiro se faz presente inclusive na mídia brasileira. Se deu no New York Times, só pode ser a verdade, o certo, o imparcial. Vide que o link é uma repetição feita pelo Estadão.


As verdades que não te contam

Os jornais nos EUA, ao contrário do que ocorre aqui, tem uma prevalência mais local do que nacional. Isso quer dizer que na área de Boston o jornal Boston Globe (aquele mesmo, do filme Spotlight) tem uma preferência maior do que o NYT. A concorrência é maior. Além disso, a publicação de Nova York nem é o jornal mais lido dos EUA: esse título pertence ao Wall Street Journal. O NYT fica em um nada honroso terceiro lugar.

O jornal nova-iorquino teve vários problemas financeiros recentemente, tendo que vender parte do seu prédio para quitar dívidas. Além disso um estrangeiro é um dos seus principais acionistas: o mexicano Carlos Slim.

Dizer que o NYT não está refém de interesses ou de algum viés ideológico (por parte dos seus donos ou jornalistas), como se esse tipo de coisa só ocorresse no Brasil (com a Globo, por exemplo) soa como piada. Não digo por esse tipo de postura ser intencional: é praticamente impossível um jornalista não colocar um pouco de seus valores ou ideias em um texto.

Nosso trabalho, ou o resultado dele, não deixa de ser a tradução do nosso arcabouço cultural. Daquilo que somos e aprendemos, enfim. Isso vale para qualquer um e para qualquer atividade. Portanto, não dá para jogar essa pecha no NYT, ou em qualquer outro órgão exclusivamente.

Além disso, vivemos num mundo caótico, que tudo munda a toda hora de lugar. É muito difícil ser preciso. Antigamente os jornais tinham o espaço de “errata” para isso, mas nos tempos da internet é muito complicado voltar atrás. Caiu na rede, é peixe.

Uma impressão parecida também ocorre quando o assunto é mídia eletrônica. Veja a CNN: Para muitos brasileiros – incluindo jornalistas – ela também tem uma enorme autoridade. Só que mesmo nos EUA ela não é líder de audiência; esse posto pertence à Fox News.

A fama de viés ideológico presente nesses canais de TV é conhecida. A CNN é apelidada de “Clinton News Network“, dada às suas supostas preferências pelo partido Democrata, a esquerda de lá. Enquanto que a Fox News é tida como uma emissora mais ao centro por uns e mais à direita por outros.

Portanto, pare de ver os órgãos de imprensa internacionais como semideuses. Além de você parecer um jeca, só vai demonstrar uma tremenda desinformação.