o mito do planejamento

O problema do Brasil é falta de planejamento. O brasileiro não planeja. Para montar um negócio de sucesso é preciso planejamento. Se tivesse planejado antes… Quem nunca ouviu que tudo é uma questão de planejamento?

A primeira vez que fui dar uma real importância ao planejamento – mas com base, e não simplesmente vindo da boca para fora de alguém -, foi em 2015, durante um evento no Sebrae.

O tal evento reunia pessoas que estavam interessadas ou já tinham um e-commerce. Eu estava começando a Vórtice Internet. Achei que indo lá poderia ter alguma chance de trocar uma figurinha, apresentar meu trabalho, obter contatos. Daí o apresentador do evento deu uma palestrinha de cerca de uma hora e meia.

O palestrante, muito interessante, falou sobre planejamento. Falou de suas experiências profissionais a respeito disso. De se analisar o mercado e concorrentes. Comparou o japonês, o americano e o brasileiro, que o brasileiro não planeja, como se deve planejar um negócio e porque isso é importante.

Achei bastante relevante, e saí plenamente convencido. Até certo ponto, pelo menos, eu acho…

Dali em diante fiquei encucado com a importância de se planejar. De se por tudo no papel antes de fazer alguma coisa. De prever custos, riscos, ver concorrência.

Qualquer ideia que eu tinha lá ia eu para o Excel botar tudo. Qualquer sitezinho eu levantava as informações, custos, o que precisaria. E confesso: esse tipo de mentalidade ajuda.

Mas com o tempo percebi que isso não é tudo. Que não garante (quase) nada, e que inclusive pode servir como um bloqueio mental e desmotivador.

Explico.

Já combinou com os russos?

Um dos grandes problemas do planejamento é que você simplesmente não tem controle sobre variáveis externas. Que podem interferir totalmente no curso da sua ideia. Num país instável como o Brasil esse tipo de coisa é mais comum do que se imagina.

O “jeitinho” brasileiro se faz presente nessas coisas. Até no jeito desapegado do brasileiro às táticas do futebol. Do calço na mesa do bar para equilibrar a cerveja. Brasileiro não planeja nada, e não cumpre nem hora marcada. É um aspecto que precisamos, em grande parte, melhorar – mas é a nossa realidade.

Planejamento não é tudo

Se você for parar para analisar nem todos os negócios do mundo foram feitos com planejamento. Tome-se por exemplo o Google, a Apple e a Microsoft. Se você for ver a história delas, no começo especificamente, verá que os produtos delas foram mais construídos com vontade e criatividade, em ambientes bagunçados como garagens, do que em salas de reunião com ar-condicionados, gente com 364 especializações falando termos em inglês e usando metodologias.

Peguei como exemplo três grandes empresas de tecnologia, mas se você for olhar por aí ao redor, em empresas de amigos ou conhecidos, verá que a situação é parecida: gente arregaçando as mangas e gastando sola de sapato na rua, sem reuniões intermináveis cheias de cranismo buzzfídico.

O monstro no papel

Para finalizar, nunca me esqueci do que me disse uma vez um ex-cliente. Ele havia saído da área de TI para montar uma espécie de academia de musculação com outros serviços disponíveis. Pós-graduado em administração no exterior, ele chegou num momento de uma das reuniões e disse que, se você colocar tudo no papel, você não faz.

Aquilo calou fundo em mim. Depois de anos e anos entorpecido com notícias, passagens em livros, cursos e palestras insistindo na importância do planejamento, aquele ponto de vista mudou minha visão.

Realmente eu perceberia que ele tinha razão (pelo menos nesse aspecto.) Se você for tentar botar tudo no papel, detalhes e detalhes, quanto vai custar tudo etc. etc. daí você não tira do papel. Você percebe que o desafio é grande demais e desiste.

Fazendo um flashback da minha vida percebi que ele estava em grande parte correto. Das coisas que eu consegui concluir (como o Weesify) eu comecei despretensiosamente: eu tinha no máximo feito uns dois rascunhos, abri o IDE e comecei a desenvolver. Só depois eu comecei a me organizar, colocando no Trello o que eu deixava para fazer depois e registrar os tempos.

Mas nada, nada, parecido com algo vindo do mundo corporativo, com seus métodos, padrões, processos, termos em inglês et caterva. Quando tentei seguir pelo caminho corporate sempre quebrei a cara. Colocar tempo em tudo, ser metódico e perfeccionista, se aferrar à metodologias etc… no fundo é o verdadeiro segredo do fracasso.

Não vou dizer que você deva esquecer de fazer o mínimo de planejamento e organização na sua vida. Como poupar dinheiro, por exemplo. Deixar tudo no piloto automático pode ser suicida.

Mas a bem da verdade é que, como tudo na vida, o segredo está no equilíbrio. Não somos robôs; não consigo imaginar Michelangelo passando mais tempo planejando do que pintando o teto da Capela Sistina. E se você for ver as melhores coisas, as que mais gostamos de fazer, são realizadas na paixão – e menos motivadas por razão.