o brasileiro, o dinheiro e o futebol

Uma das formas consagradas de ascensão social no Brasil, além de ser cantor sertanejo, ex-BBB e “modelo e atriz”, é a de ser jogador de futebol.

Antes um sonho relegado às classes mais baixas, que viam num possível futebolista a chance de sair da pobreza e também não precisar mais trabalhar, tendo o craque como arrimo de família, esse, vamos dizer assim, “sonho” passou também a estar presente nas famílias de classe média, tradicionalmente mais identificadas com um sonho de emprego no mundo corporativo (que traria, junto ao dinheiro, um suposto “status”).

Entendo que essa aceitação da ideia de ter um filho jogador de futebol na classe média se deu a partir do surgimento de nomes como Kaká, vindo de família bem-estabelecida (o pai sendo engenheiro civil) e pelas cifras envolvendo o mundo da bola, cada vez mais crescentes. Ser jogador deixou de ser vista tão-somente como uma profissão para pessoas tidas como desqualificadas, vindas de famílias desestruturadas e que viam na bola um prato de comida. O boleiro virou atleta.

Mas meu ponto aqui não é fazer sociologia de botequim mas sim me ater aos fatos. Quero discorrer um pouco sobre essa ilusão que muitos acham que é fácil se tornar um jogador bem-sucedido, que ganhará milhões de euros e terá vários carros na garagem.Quando um pai de classe média leva um filho para a escolinha de futebol sonhando que ele se tornará um milionário da bola (e que não precisará mais trabalhar) esquece-se que, por trás de cases como Neymar, a esmagadora maioria dos jogadores de futebol no Brasil (80%) ganha até R$ 1 mil por mês, segundo levantamento da CBF.

Sim. Praticamente um salário mínimo. É um salário irrisório. E outros 14% recebem até R$ 5 mil. O que também não é nenhum grande salário – nada que não seja possível de se obter na iniciativa privada ou num emprego público. Com o agravante que a carreira de jogador de futebol é curta: em torno de 20 anos.

Na realidade, não precisa ser gênio para perceber isso. O universo dos bons salários da bola aqui no Brasil está basicamente na primeira divisão. É um universo que envolve, numa conta otimista, 500 atletas e treinadores “ganhando bem”. Num país com mais de 200 milhões de habitantes, imagine conseguir entrar nesse clube.

A profissão também não é só um mar-de-rosas: viagens, distância da família, falta de privacidade (no caso dos famosos), altos e baixos, contusões…


O ponto a que quero chegar é que é importante tomar cuidado com as ilusões que tentam nos vender.

Ter um bom emprego. Ter fama e muito dinheiro. Muitas mulheres… No fundo, tudo são ilusões, sonhos, que, se você parar para pensar, perceberá que a vida não se resume a isso.

No caso do futebol essa ilusão é, em grande parte, construída pela mídia: quando um jogador é vendido para a Europa e é noticiado que ele ganhará milhões logo o iludido pensa que todo jogador é Neymar, enquanto que a regra é aquele zagueiro do Atlético de Bororó do Oeste que sofre para se manter.

Trabalhar é um saco; com certeza jogar futebol é melhor do que ficar “criando barriga” em frente à uma mesa de escritório ou carregando tijolos. Mas eu vejo que esse imediatismo do brasileiro em se “ganhar dinheiro” tem outra causa.

O brasileiro, como uma vez defendeu Millôr Fernandes, acha que todos os problemas se devem à falta de dinheiro. Estamos num país que, se você está empregado, tem que pagar muitos impostos com pouco retorno; se está desempregado, pior, pois aí tem pouquíssima assistência do governo.

Daí o dinheirismo embutido na alma do brasileiro. Esse desespero que faz com que o brasileiro veja num bilhete de loteria – ou num filho craque – seu passaporte para fuga de todos os problemas.