A difícil relação entre inovação, startups e a possibilidade de gerar lucro e tornar o negócio rentável

Startups… O YouTube tem 12 anos e nunca deu lucro. Twitter também nunca de lucro. Assim como o Foursquare, Instagram, WhatsApp… Facebook sofre para conseguir alguma receita, isso porque não paga os produtos de conteúdo. Blogs do Tumblr tem bilhões de pageviews, mas a receita é de alguns milhões, o que dificulta as operações. O que dá errado? E por que tantas pessoas desejam seguir pelo mesmo caminho: monte uma startup, capte investimentos, fique rico vendendo ela?

Lembro um colega da empresa de tecnologia em que trabalhei, numa dessas conversas descompromissadas no retorno do almoço, que tudo o que ele gostaria de ter é uma grande ideia em que ele pudesse gerar milhões e milhões de dólares logo de uma vez e assim definitivamente não precisar mais voltar a trabalhar no velho esquemão CLT 8h/dia.

Realmente, é de se impressionar com as cifras que muitas startups com pouco tempo de vida movimentam, através dos seus investidores. O que atiça a imaginação de muita gente de tentar esse caminho. Tentador: um lugar legal, alguns programadores e designers e voilà, um produto diferente disponível na Web custando poucos reais em infraestrutura de nuvem.

Mas será que é tudo isso mesmo? É tudo tão simples assim?

Ideias e negóciosDetrás de todo o discurso empolado, de palestrantes e gurus, das notas em blogs que cobrem o ambiente de tecnologia o que quase nunca se fala é da dificuldade de fazer o negócio – aliás qualquer negócio – vingar. Alguns pontos:

  • O seu produto pode ser “inovador”. Mas será que isso significa que alguém vai querer usar?
  • Gerar receita nos primeiros anos
  • Tempo de vida – risco de abandono, modelo de negócios decair (ex.: sites de compras coletivas)

Confesso que também já fui “picado” pelo bichinho da startup. Viver de uma ideia. Obter milhões de usuários, e outros milhões em receita…

Mas analisando esses grandes sucessos (Foursquare, Twitter e cia.), e repensando tudo isso, ao mesmo tempo que li livros e entrevistas de fundadores, cheguei a conclusão de que se é para começar com algum negócio digital o ideal é começar com algo pequeno, menor. Explico.

“Negócios disruptivos”, empreendedorismo de palco e startups que nunca decolarão…

Recentemente li o livro Traction (sem edição em português) onde os autores entrevistam vários fundadores de negócios digitais (os próprios autores são, inclusive, fundadores de startups.) No livro há menção ao Twitter e Facebook sim. Mas o que me chamou a atenção mesmo foram as entrevistas com criadores de empresas como Moz e WPEngine.

Negócios que não são famosos como o Facebook (longe disso), mas que são bem lucrativos, funcionais, de qualidade e estáveis. São negócios úteis – a WPEngine é a empresa mais conhecida em hospedagem WordPress de qualidade, por exemplo.

Foi um aspecto do livro que me chamou a atenção. Os autores davam atenção e valor a negócios que geralmente tem pouca badalação, como o HuffPost, que não parece mas é um negócio milionário.

Entendo que estamos passando por uma espécie de nova bolha da internet. Negócios digitais bilhardários não geram lucro o suficiente. Rios de dinheiro correm para startups que ainda mal saíram do berço. Para a maioria deles fechar as portas logo.

Eu estava embalado para começar um negócio digital “inovador”, mas confesso que a leitura de Traction foi um belo banho de água fria necessário. É errado sair desenvolvendo seu produto sem saber se há demanda nesse meio-tempo. O ideal é já ir sondando o mercado – comece então como o pessoal da Moz: inicie com um blog, dando dicas de SEO e conteúdo, durante um ano. Vendo que há boa demanda (como ele percebeu) trabalhe um negócio nisso.

Minerar ou vender pás?

Minha visão é que muitos desse negócios que hoje não conseguem gerar lucro tendem a sumir algum dia. Chegarão num limite. Mesmo passado todos esses anos o YouTube e o Twitter ainda não conseguiram encontrar um modelo de obtenção de receitas que saia do famigerado modelo de publicidade com banners – amanhã eles conseguirão um novo modelo?

Enquanto isso, empresas bem menores, sem capital na bolsa, mas que prestam serviços úteis e são lucrativas continuarão por aí. E-commerce, produtores de conteúdo e afins.

No tempo em que eu estava acompanhando a indústria de games e o movimento indie eu me lembro de ter lido no ebook realista App Idiots: Quick Stop Guide to Save You from Blowing Your Money on Creating an App sobre a “corrida de ouro” que havia se tornado o mercado de apps.

O autor compara aqueles tempos com a corrida do ouro no oeste dos EUA, e dispara que quem fez dinheiro naquela época foram mais os vendedores de pás e picaretas e menos os aventureiros que iam explorar a região. Sim, há hits como Angry Birds; mas ele é uma estrela-do-mar num oceano de aplicativos que nunca foram baixados.

As cascas de banana que jogam por aí…

Não estou dizendo que o leitor não possa largar o seu emprego e se lançar à garagem mofada de casa com um computador para se arriscar. Mas o ponto em que quero chegar é de que é bom evitar cair nas armadilhas que muitos embusteiros espalham por aí. Fala sério: Estamos num país subdesenvolvido. O governo nos toma 5 meses de trabalho e não nos devolve quase nada, o que faz que o povo esquente a cabeça com dinheiro – como dizia o Millôr Fernandes, é a falta de dinheiro que desespera o brasileiro. É daí temos a síndrome do dinheirismo, a busca por dinheiro fácil. E por isso precisamos tomar cuidado. Prudência e canja de galinha não fazem mal a ninguém.

Se quiser começar algo novo, o ideal é tentar ser útil. Veja bem: não sou nenhum especialista, guru ou coisa assim. Meu intuito sincero com esse texto é lançar um libelo contra toda essa irracionalidade. É meio que um aviso para mim mesmo. E, no final das contas, oferecer mais um contraponto a tudo isso.


 

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