pensamento

Estava caminhando pelo corredor da escola onde estudei o primário e ginasial. Nas paredes, quadros pendurados, trabalhos feitos em cartolina, tinta, caneta e régua.

O primeiro trabalho era sobre o fundo do mar. Continha um fundo azul – representando o fundo do mar – com uma parte inferior, o fundo de terra. O restante da cena era povoada por peixes. Mas não só peixes simples: lulas, arraias, e até um tipo de água-viva se encontrava por lá. Uma subversão?

Cinco passos a diante, contemplo outro trabalho. Para minha frustração, feito da mesma maneira, com os mesmo símbolos e tons. E outro, e outro. Os trabalhos se repetiam, como que se não houvesse outra coisa que pudesse ser feita. Como numa missão militar, onde os subjugados não podem contestar a ordem recebida – devem apenas cumpri-la. Assim o fizeram.

Incrível que, mesmo saindo da escola há quase de 5 anos, as coisas continuam iguais. A mesma maneira de se fazer as coisas, sem nada que desenvolva o sujeito, enfim, que estimule a criatividade, a inteligência.

Essa observação me remeteu às lembranças de quando tinha que fazer esses trabalhos. Dogmas: o material sempre tinha que ser a cartolina, caneta. Os títulos sempre iguais: com uma forma, deveria ser escrito de início Trabalho sobre: “Trabalho sobre meio ambiente”, “Trabalho sobre Aids”. Para não extrapolar o espaço, era feita uma margem. Mas não uma margem de qualquer tamanho: sempre um centímetro de borda. Nunca mais, nunca menos. Se fosse escrever muito texto (quase uma regra), era recomendável escrever (sempre à mão) sobre papel almaço. O resultado era sempre tosco.

Eram quase ordens, ou com caráter de ordens. Na realidade cumpríamos tudo como autômatos. Lembro de um professor de faculdade ligado à pedagogia comentando como a imaginação das crianças é secada ao entrar na escola: na aula de arte, um aluno gostaria de pintar de azul; outra de vermelho; mas aí entrava o mestre e dizia: “não, não, tem que pintar de verde”. Ainda lembro de outro professor, de publicidade, explicou que uma porcentagem de quase 100% das crianças, antes de entrar na escola, são criativas; depois que entram, só um porcento sobra consegue manter a imaginação.

Isso não é difícil de constatar: afinal, quem não se lembra das coisas que fazia quando pequeno e hoje, já com uma idade avançada, não consegue mais se surpreender com nada?

Agora já tarde demais para perceber. O cérebro já foi reprogramado. Agora, é se contentar aceitando as coisas como são, em dar voltas numa prisão. Cercada por muralhas de um centímetro.