Agosto. Sempre foi o meu “mês do azar”. Criei durante anos uma cisma com esse mês por causa de situações ruins que me ocorreram nele.

Pelo menos até 2010.

Eu estava mal, muito mal. Depressivo. Havia um ano e meio que eu havia me formado em comunicação, já havia deixado essa profissão de lado e estava na estrada, tentando me firmar como webdeveloper. Queria trabalhar com Web. Já no início de último ano faculdade passei a pensar nisso. Tinha estudado Python desde fins de 2007, colocando um blog em Django, com o domínio franciscoprado.blog.br por volta de 2008. Sites .com.br ainda não estavam disponíveis para pessoas físicas. Python fundiu minha cabeça: programar tinha voltado a ser uma coisa divertida para mim. Não imaginava que poderia ser assim – desde o técnico em informática no colegial achava que programar seria fazer sistemas desktop em Delphi ou VB6, monolíticos e sem graça. Mas com Python/Django agora tinha um site legal no ar.

Por volta de 2009 descobri o WordPress. Era incrível: bastava um ambiente Web, com PHP e MySQL, descomprimir e pronto, lá estava um blog “zerinho”. Expandir era fácil. Criar temas, que é a parte visual do site, também. Conheci o WordPress vendo anúncios de vagas de agências lá de Santos. Morava ainda em Guarujá.

E lá estava eu, tentando ser freelancer na área de Web. Meu primeiro site foi o da Sabpp. R$ 600 por um mês e meio de trabalho… O resultado foi tosco: minhas noções de design eram precárias, de WordPress também eram. Mas valentemente consegui colocá-lo no ar, aposentar o site antigo estático deles e dar um ambiente com painel de administração para o pessoal poder atualizar. Até hoje o site da Sabpp é um WordPress (atualizado e na terceira encarnação visual), com a minha participação nas três ocasiões.

Daí começou o tempo das vacas magras. Não sabia o que fazer. Lá por 2010 mandei e-mail marketing para uns políticos do Guarujá. Donos de jornais. “Podemos marcar uma reunião?”. Achavam muito caro. Meu orçamento na época não chegava a R$ 1000. Nada.

Enviei para lojistas do Shopping Jequiti, perto de casa. Dois responderam. Um ficou de marcar uma reunião, tentava e nunca fechava. Outro aceitou me receber, lá por junho de 2010. Era dono de casas noturnas (baladas), tinha uma na capital e outra no Jequiti. O escritório era na Vila Olímpia. E fui. Minha primeira vez indo sozinho para São Paulo. Era noite, tudo escuro, não entendia nada, aquele monte de prédios, trânsito, tudo novo para um caiçara que cresceu em ruas de areia.

O cara, dono da balada, me atendeu. Conversamos, ele curtiu e fiquei de apresentar um layout. Daí minha falta de profissionalismo na parte de design fez com que eu fosse rejeitado. Nunca mais me responderam.

Era julho de 2010. Sem trabalhos, emprego, dinheiro, nada. Ficava no Twitter me candidatando nos links postados pelo @trampos. Ainda nem existia a versão em site. Daí batendo cabeça me deparo com um freela no Twitter. Era para uma agência pequena do Bixiga. Eles tinham pego um site holandês em Adobe Flash, “decompilaram” ele (tipo uma engenharia reversa, abrir um código fechado) e estavam tentando adaptar para um cliente de bolsas deles. O site usava ActionScript 3.0. A versão 3.0 eles não sabiam como fazer, eu não tinha também muita experiência, tinha estudado a tecnologia um ano atrás e só. Um cara anterior tinha desistido do freela (talvez por ver o que teria que ser feito) e daí sobrou eu. Peguei. Não tinha escolha. Um corno job por excelência.

E isso foi a minha sorte. Bem, o código estava uma bosta. Lembro como se fosse ontem. Imagine você receber um site “decompilado”, o código estar todo zoado e ainda com nomes de variáveis e funções em holandês! Cobrei míseros R$ 500 por uma semana, acho, de trabalho. E lá estava eu, no frio do Guarujá, sozinho, na fé, tentando adaptar o site ao design da agência. Por quinhentos reais…

E mais uma vez, depois de um monte de cabeçadas e apertadas de F5, na tentativa-e-erro, emails para lá e para cá, mexe aqui, tenta assim Francisco por favor, lá estava o site com textos em português e com fotos de portfólio do cliente, como pedido!

Semanas depois a agência abriu vaga. Para Flash Developer. É para agência, contratação rápida. Eu tinha feito o freela para eles, mandei currículo e lembrei disso. Eles acharam legal, mas ficaram desconfiados, com razão. Eu estava no Guarujá, como iria para São Paulo tão rapidamente? Fui chamado para a entrevista, peregrinei por meia-hora entre a Av. Liberdade até chegar à Rua Treze de Maio. O Bixiga parecia o centro velho de Santos, um muquifo só, a tal agência ficava numa espécie de galpão num prédio residencial, por dentro tudo OK mas um monte de sapatos na sala da entrada, não entendia nada, meia-hora para ser entrevistado. Todo tímido, garanti que poderia entregar o que eles pediam. Falei que iria morar com parentes aqui em São Paulo, tudo beleza. Voltei pra casa no Guarujá.

Menos de uma semana eles enviariam um e-mail dizendo que me aceitariam. Estava sozinho em casa naquela manhã. Foi uma explosão de alegria! Não acreditava, eu estava empregado! Meu primeiro emprego na área… Ganharia um salário irrisório de R$ 1200, mas foda-se. Eu estava empregado. Adeus Guarujá, adeus dias frios chuvosos encastelado dentro de casa, depressivo, sozinho, esculhambado por ser considerado um inútil. Agora tinha um trabalho. E naquilo que eu queria fazer: trabalhar com Web.

Uns dois dias antes (uma sexta-feira) de eu ir para São Paulo começar no trabalho novo uma pessoa me liga em casa, pedindo ajuda para conectar o famigerado Speedy dele. Era um senhor que eu já tinha ajudado (ou tentado ajudar) antes. Sim, eu tentava quebrar uns galhos para ganhar uns trocados nesse período do Guarujá. Internet por lá era, é, um negócio deficiente de dar dó. Era o que tinha para se fazer por lá. Garanti que iria no começo da próxima semana, mas, não sei porquê, meio que no automático falei isso, sem me dar conta que estaria indo para São Paulo. Nem me dei conta de cancelar a visita.

E daí?

Fui ridicularizado várias vezes. Pelo salário, por ter que fazer viagens longas do Jaçanã até o Bixiga por um salário irrisório. “Você acha que vale a pena?”, “por que você não presta um concurso público?”, “volta a morar com a gente”. E lá estava eu, esmagado no metrô, três horas de viagem todos os dias para ir e voltar, com um salário que não dava para nada.

Eu fico imaginando pela primeira vez agora enquanto escrevo o que teria acontecido se eu tivesse calado a minha voz interior, abaixado a cabeça e recusado a oportunidade para me contentar atendendo o cara do Speedy, o caminho mais preguiçoso e fácil por ali. Continuando no Guarujá, estaria muito mal? Estaria desempregado até hoje? Não sei.

No momento estou no meu quarto emprego, participando de processos seletivos, incluindo em multinacional. Morando no centro de São Paulo, perto de onde tudo começou. Vou vivendo, trabalhando, pagando minhas contas, salário razoável, lendo meus livros e vendo meus filmes, passeando por aí e com um monte de projetos na cachola.

Dei muitas cabeçadas. Larguei emprego e tentei ser empreendedor de games – voltei a ficar depressivo nessa tentativa frustrada. Voltei para o Guarujá. Voltei para São Paulo. Trabalhei em lugares que não valeram a pena. Ganhei dinheiro. Perdi dinheiro. Montei uma espécie de agência com antigo amigo, com quem rompi. Não deu certo, o cara não era firmeza, fazer o quê.

E conheci gente legal. Conheci outras culturas. Pessoas viajadas, estudadas, muito diferentes das do que eu conheci no litoral. Ajudei empresas a terem um site. Visitei clientes, fiz contatos. Estudei e trabalhei com um monte de coisas: sites em Flash, blogs, portais, e-commerce, aplicativos mobile, SEO, desenvolvimento de games, programas 3D, front-end e back-end. Visitei lugares, comi em restaurantes bacanas, fui a bares legais. Convivi com designers gráficos. Profissionais de marketing. Analistas de sistemas. Tudo muito simples, mas visto com o olhar de quem tudo era novidade.

Tudo isso começou há sete anos. Dia 16 de agosto de 2010, quando comecei naquela agência que ficava num canto da Rua Treze de Maio, voltando cansado, à noite, cruzando a cidade estranha em metrôs e ônibus lotados, ganhando pouco, dormindo no quarto dos fundos e de favor.

E colocando a cabeça no travesseiro, com a satisfação de ter feito um bom trabalho e sonhando com os dias melhores que ainda estavam por vir.

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